A confusão demoníaca, ou O lamaçal contemporâneo


Por: Lucas Fófano


Em termos gerais, ou melhor, na concepção filosófica, o relativismo é uma doutrina que afirma a relatividade do conhecimento humano[1], ou seja – agora sim em termos gerais --, parte do pressuposto de que a verdade ou o conhecimento é relativo à experiência individual. Daí que há um condicionamento do sujeito que conhece sobre o objeto que é conhecido e também acerca dos objetos de conhecimento entre si. Dessa forma, a situação do sujeito, sua posição e o momento, condicionam e determinam o modo como ele interage com os objetos de conhecimento e, consequentemente, como ele vê e concebe a realidade que nos cerca.

O sujeito, que agora é o centro da relação com a realidade, é sempre um sujeito que se encontra numa determinada circunstância, como época, civilização, cultura, posição social etc., e, portanto, não pode transcender esta particularidade e conceber algo universal, sendo sua impressão particular a única coisa possível de ser expressada. Daí que ele projeta algo como sendo ou não verdadeiro. Isso é tão digno de crédito quanto a palavra de um sujeito que dizer comer uma maçã enquanto se empanturra de batatas monalisa.

Para não cometer um ato imperdoável pelo leitor mais apressado, irei compilar três ou quatro momentos que acredito serem a base da genealogia deste brejo cheio de rãs que fundamenta a filosofia moderna e contemporânea. Protágoras tem uma preposição que expressa de maneira muito clara o modo de pensar dos sofistas – que devemos considerar inicialmente --, diz ele:

“O homem é a medida de todas as coisas, dos que são pelo que são, e dos que não são pelo que não são[2].”

Daqui resulta a máxima de que cada indivíduo possui a sua verdade – e teremos a sua variante na esfera pedagógica também, principalmente com interacionistas como Vygotsky e Piaget --, ou seja, as coisas, os seres e os fatos não são em si mesmos de acordo com uma realidade concreta e transcendental, o que são ou deixam de ser, varia de acordo com a experiência individual, que é a maneira com a qual o indivíduo apreende e julga a realidade, sendo o próprio indivíduo a referência absoluta. “O homem é a medida de todas as coisas”, como disse Protágoras, portanto, o conceito de verdade apoiado numa ordem transcendental que governa todas as coisas é deixado de lado em nome da justificativa sintética de que o próprio tempo o esfacelou, pois tais conceitos o são em si de acordo com as circunstâncias histórico-sociais daqueles que os concebiam. O produto resultante dessa forma de pensar é que o que existe são apenas as meras opiniões pessoais sobre as coisas e o máximo que se pode pretender com elas é tentar persuadir o outro de que uma opinião é mais útil ou eficiente neste ou naquele momento.

Em suma, o que existe, ou ainda, o que deixa de existir é a concepção de que há uma dimensão das coisas em si mesmas, como se elas não possuíssem identidade para além do que pensamos delas: o sapo visto por Fulano pode ser um cavalo no olhar de Ciclano, a depender da posição da luz com que este o recebe visualmente, e ninguém tem a autoridade de lhe dizer que não é um equino, pois, o ponto de referência do seu conceito é a sua própria experiência.

Adiante, cumprindo a promessa de não ficar fora de proporção com a pressa dos leitores, chegamos à Kant e sua concepção crítica da faculdade de conhecer do homem, a razão. Para Kant, a tradição filosófica que sempre teve o objeto do conhecimento como centro do processo de busca pela verdade, é uma ilusão, pois não considera o sujeito do conhecimento; o sujeito a quem o objeto se apresenta e as possibilidades do conhecimento humano. Dessa forma, o antigo conceito de filosofar que consistia em partir da realidade como referência da busca pela verdade e da concepção de que o homem, através de suas capacidades, pudesse conhecer as coisas como elas são, é deixado de lado e desprezado como simples fruto da relatividade do conhecer. A estrutura vazia da razão humana, segundo ele, só pode ser preenchida por conteúdos que são provenientes da experiência sensível, que, por sua vez, formarão o substrato com os quais a razão trabalhará. Por conseguinte, as coisas só podem ser conhecidas como fenômenos – da maneira como o sujeito as percebe -- e não como em si mesmas[3].

De Kant, passamos agora para Nietzsche e seu pensamento que procura fundamentar uma crítica ao modo como as questões morais e de valores são entendidos no pensamento humano, especialmente no ocidente, propondo a construção de uma genealogia da moral[4]; um questionamento do entendimento de bem e de mal e como se determina o que é o bem e o que é o mal; analisando as maneiras com as quais se busca legitimar tais questões e, daí, construindo um conceito de que as pessoas sempre se firmaram nessas concepções como algo natural e universal, alheio à razão humana. Nietzsche surge, esquecendo-se de que os valores morais são históricos e construídos dentro de determinadas sociedades, com a idéia de transvalorização dos valores; Nietzsche surge como a figura do imoralista.

Alguns podem considerar esse conjunto de pensamentos como a formalização da crítica filosófica, que propõe um estudo mais fundo de tudo o que se construiu. Outros, por outro lado, podem dizer que talvez não devêssemos perseguir o conhecimento com a crítica tão afundo dessa maneira, mantendo a mente um pouco fechada, para que o cérebro não caia para fora.

Nesse sentido, Nietzsche surge com sua crítica da mesma forma que a filosofia moderna surge à tradição filosófica. Nietzsche extrai observações de si mesmo e as projeta de forma pejorativa naqueles que ele bem entende. Mas porque seu diagnóstico deveria ser lançado a Sócrates, soldado forte e robusto e não nele mesmo, frágil, doente e que mal se levantava da cama?

Toda a tradição filosófica concreta que compôs as bases do pensamento ocidental, recebe uma camada de lama que a encobre e que de certa forma consiste na fundação da qual é erigida toda a filosofia moderna e contemporânea.

Deste ponto da história até hoje, o desenvolvimento da concepção de ser humano como ser histórico e consequentemente inserido em determinadas circunstâncias sociais, levou muitos pensadores à apoiarem o conceito de impossibilidade de transcendência da condição humana na sua particularidade, fundamentando, in limine, outra camada de lama, lodo e argila no lamaçal da filosofia moderna.

Deste atoleiro surgem as rãs que coaxam suas observações desconectas de qualquer realidade, seja biológico ou racional, tal como o movimento de igualdade de gênero que busca a neutralidade de diferenças entre homens e mulheres no mesmo momento em que afirma que tais diferenças são imposições sociais derivadas de uma cultura machista, como por exemplo a pouca participação de mulheres em áreas de ciências exatas, que seria consequência da dominação masculina e não fruto de escolhas individuais inerentes à natureza feminina[5].

Este é o charco que oferece o substrato para o crescimento de idéias em detrição às crenças; o charco que nutri o surgimento de pessoas extremamente orgulhosas e pedantes ao mesmo nível em que são vazias de qualquer sinceridade interior.

Contra a loucura do mundo moderno de querer ver tudo do topo do maior cume, de ter a si mesmo como ponto de referência absoluto, talvez Chesterton traria a seguinte colocação:

“Podemos dizer que o mal do orgulho é estar fora de proporção com o universo[6].”






1. Cf. Abbagnano, N. Dicionário de Filosofia, p. 845-846.
2. Platão, Teeteto, 151 e 152.
3. A Crítica da Razão Pura, Immanuel Kant.
4. Genealogia da Moral, Friedrich Nietzsche.
6. Tremendas Trivialidades, G. K. Chestrton.



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